A Trajetória do
"Almirante Negro"
1880: Dia 24 de Junho nasce João Cândido Felisberto na
fazenda Coxilha Bonito, em Encruzilhada do Sul, atualmente município Feliciano,
RS.
1895: Aos 14 anos entra para a Escola de Aprendizes de
Marinheiros do Rio Grande do Sul.
1904: interna-se no Hospital da
Marinha para tratamento de tuberculose.
1910: É enviado à Inglaterra para conduzir o encouraçado
Minas Geral ao Brasil. Lidera a revolta da Chibata, contra as punições
corporais na Marinha de Guerra. É preso e sobrevive à tentativa de assassinato
na Ilha das Cobras.
1911: É internado no Hospital Nacional de Alienados, na
Praia Vermelha, no Rio de Janeiro (RJ).
1912: Volta à prisão e é absolvido em seu julgamento,
em 29 de novembro.
1913: Emprega-se no veleiro
"Antônico". Conduz a embarcação dos portos do sul do país ao Rio de
Janeiro. Na chegada à capital carioca, por pressão é demitido. No mesmo ano,
casa-se na Igreja Nossa Senhora da Glória, em Laranjeiras, no Rio de Janeiro,
RJ.
1930: Muda-se com a família definitivamente do Rio de
Janeiro para São João de Meriti, na Baixada Fluminense.
1946: Morre seu companheiro de Revolta, Francisco Dias
Martins, o "Mão Negra".
1953: Despede-se do navio Minas Gerais vendido como
sucata à Itália.
1959: Publicação do livro A Revolta da Chibata. Volta à
terra natal para receber homenagem, cancelada por ordem da Marinha.
1969: Morre a 8 de dezembro, no Hospital Getúlio
Vargas. É sepultado no Cemitério do Caju, no Rio de Janeiro. Deixa uma herança
de coragem e dignidade, além de esposa e filhos.
O Marinheiro
João Cândido, homem pobre, filho de ex-escravos,
tornou-se aos 30 anos, uma das lideranças de um importante movimento pelos
direitos humanos dentro da Marinha Brasileira, em 1910. A Revolta da Chibata
foi a rebelião dos marujos para exigir o fim das punições corporais aplicadas
pela Marinha de Guerra, Melhores soldos e alimentação digna.
1880 - João Cândido Felisberto nasce em 24 de junho
de 1880, na Fazenda Coxilha Bonita, em Encruzilhada do Sul. Atualmente
município Dom Feliciano, localizada no estado do Rio Grande do Sul. Aos 14 anos,
ele ingressa na Escola de Aprendizes de Marinheiros de Porto Alegre. Dois anos
depois, inicia uma vida de dedicação e devoção à Marinha de Guerra.
A Cidade do Rio de
Janeiro
A Capital de 1 milhão de habitantes está agitada
com a posso do Presidente Marechal Hermes da Fonseca. O país vive relativa
estabilidade com o café e com a borracha. Novidades européias trazem um modo de
vida mais cosmopolita. A cidade ganha novos bondes e largas alamedas.
1910 - A Marinha se equipa com um dos navios de guerra mais poderoso do mundo: o Minas Gerais.
João Cândido e outros marinheiros são enviados à
Inglaterra para conduzirem o encouraçado até o Brasil.
Uma Herança do Passado
A escravidão já havia sido
abolida por lei em 1888, mas insistia em deixar sua herança enraizada nas novas
estruturas da República. Na Marinha de Guerra, os marinheiros sofriam forte
preconceito e racismo.
Os marujos eram, em sua maioria,
negros e de classes sociais mais baixas. Os recrutamentos eram desumanos.
Meninos e pais de família eram jogados à força nos porões dos navios e, em
condições precárias, muitos morriam antes mesmo de chegar ao destino.
Revolta da Chibata
A Revolta da Chibata ocorreu durante o governo de Hermes da Fonseca, em 1910. Foi um levante de cunho social, realizado em subdivisões da Marinha, sediadas no Rio de Janeiro. O objetivo era por fim às punições físicas a que eram submetidos os marinheiros, como as chicotadas, o uso da santa-luzia e o aprisionamento em celas destinadas ao isolamento. Os marinheiros requeriam também uma alimentação mais saudável e que fosse colocada em prática a lei de reajuste de seus honorários, já votada pelo Congresso. De todos os pedidos requeridos, o que mais afligia os marujos eram os constantes castigos a que eram sujeitos. Esta situação revoltou os marinheiros, que eram obrigados, por seus comandantes, a assistir a todas as punições aplicadas, para que elas servissem de exemplo. Os soldados se juntavam e ao estampido de tambores traziam o rebelado, despido na parte de cima e com as mãos atadas, iniciando o castigo.
A sublevação deu-se quando um marinheiro de nome Marcelino Rodrigues levou 250 chicotadas por ter machucado um companheiro da Marinha no interior do navio de guerra denominado Minas Gerais, que se encontrava a caminho do Rio de Janeiro. Os rebelados assassinaram o capitão do navio e mais três militares. Enquanto isso, na Baía de Guanabara, os insurgentes conseguiram a adesão dos marujos da nau São Paulo.
O condutor da insurreição, João Candido– o célebre Almirante Negro –, foi o responsável por escrever a missiva com as solicitações exigidas para o fim da revolta.
O presidente Hermes da Fonseca percebeu que não se tratava de um blefe e decidiu ceder diante do ultimato dos insurgentes. Os marinheiros confiaram no presidente, entregaram as armas e os navios rebelados, mas com o término do conflito o governante não cumpriu com a sua palavra e baniu alguns marinheiros que haviam feito parte do motim. Os marinheiros não se omitiram diante deste fato, estourando outro levante na Ilha das Cobras, o qual foi severamente abafado pelas tropas do governo. Muitos marujos morreram, outros tantos foram banidos da Marinha. Quanto a João Cândido, foi aprisionado e atirado em um calabouço na Ilha das Cobras. Quando se livrou da prisão, encontrava-se emocionalmente amargurado, considerado até mesmo meio alucinado. Em 1912 ele foi julgado e considerado inocente. Historicamente ficou conhecido como o Almirante Negro, aquele que aboliu o uso da chibata na Marinha brasileira.
A Capital sob a Mira dos Canhões
Um tiro de canhão é disparado ao
longe e ecoa em uma das recepções que reúnem oficiais em homenagem à posse do
Presidente. A cidade entra em colapso. Num só dia, mais de 3 mil pessoas fogem
para Petrópolis. Trens superlotados levam inúmeras famílias aos subúrbios.
Por 5 dias, a Capital se paralisa.
É uma esquadra de 4 navios com os canhões apontados para a cidade, e um total
de 2.379 marujos.
O Governo Acuado
O governo está sem saída.
Ninguém quer o ataque à Capital e nem a destruição da poderosa esquadra.
Imprensa, Marinha e políticos pedem uma dura reação do governo. Apesar disso, o
Congresso e o Presidente Marechal Hermes da Fonseca cedem à pressão rebelados e
assinam a anistia.
Logo após o decreto da anistia,
os marinheiros entregam os navios em perfeita ordem. Contudo, tanto o governo
quanto a oficialidade sentem-se afrontados com os fatos.
A Quebra do Acordo
O Governo e as autoridades militares estão
insatisfeitos com a anistia q querem voltar atrás e punir os rebelados. No dia
28 de novembro, é publicado o decreto nº 8.400, que dá à Marinha o direito de
excluir os Marinheiros revoltosos. Entre 1910 e 1912, 1.216 homens foram
expulsos. A Medida provoca uma onda de medo e tensão. Surge um a nova revolta,
agora no Batalhão Naval. Era o pretexto que as autoridades queriam para agir
severamente e punir a todos. A ordem foi bombardear a Ilha das Cobras, onde
estavam concentrados os revoltosos. A anistia é invalidada. João Cândido, a
bordo do Minas Gerais Mantém-se fiel à Marinha durante o levante do Batalhão
Naval. Mesmo assim, ao desembarcar é preso junto com seus companheiros.
Quebra-se o acordo firmado durante a Revolta da Chibata.
A Perseguição
A Marinha sufoca a sublevação da Ilha das Cobras e
superlota celas com os marujos anistiados. João Cândido e mais 17 homens são
presos em uma solitária subterrânea, úmida escura, onde é jogada cal virgem com
o pretexto de higienização. Morrem por asfixia 16 presos. Sobrevivem João Cândido
e outro companheiro. 441 presos são levados à Amazônia pelo navio Satélite.
Alguns são mortos durante a viagem e muitos entregues a donos de seringais,
para trabalhos forçados, bem como à Comissão Rondon.
1911 - Após Sobreviver à prisão na Ilha das Cobras,
João Cândido é internado no Hospital Nacional de Alienados. Quando recebe alta,
volta à prisão à espera de seu julgamento. Cerca de dois anos depois, no dia 29
de novembro de 1912, ele e seus companheiros são absolvidos por unanimidade
pelo Conselho de Guerra.

A Vida Longe da Marinha
Após 17 anos de serviços - e deter visto
companheiros serem aniquilados, João Cândido é absolvido em julgamento do
Conselho de Guerra. Porém é desligado definitivamente de suas funções. Começa
uma longa e difícil vida, pontuada pela saudade da Marinha de Guerra. Em 1930,
o marinheiro muda-se para São João de Meriti, na Baixada Fluminense. Nesse
tempo, ganha a vida como vendedor de pescado da Praça XV. Segue-se dias perto
do Mar, mas longe da Marinha. Com dificuldade, consegue trabalho na Marinha de
Mercante. Por pressão da Marinha de Guerra, é demitido. Isto repete ao longo de
sua vida.
O Adeus ao Marinheiro


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