sexta-feira, 8 de junho de 2012

 A Trajetória do "Almirante Negro"

1880: Dia 24 de Junho nasce João Cândido Felisberto na fazenda Coxilha Bonito, em Encruzilhada do Sul, atualmente município Feliciano, RS.
1895: Aos 14 anos entra para a Escola de Aprendizes de Marinheiros do Rio Grande do Sul.
 1904: interna-se no Hospital da Marinha para tratamento de tuberculose.
1910: É enviado à Inglaterra para conduzir o encouraçado Minas Geral ao Brasil. Lidera a revolta da Chibata, contra as punições corporais na Marinha de Guerra. É preso e sobrevive à tentativa de assassinato na Ilha das Cobras.
1911: É internado no Hospital Nacional de Alienados, na Praia Vermelha, no Rio de Janeiro (RJ).
1912: Volta à prisão e é absolvido em seu julgamento, em 29 de novembro.
 1913: Emprega-se no veleiro "Antônico". Conduz a embarcação dos portos do sul do país ao Rio de Janeiro. Na chegada à capital carioca, por pressão é demitido. No mesmo ano, casa-se na Igreja Nossa Senhora da Glória, em Laranjeiras, no Rio de Janeiro, RJ. 
1930: Muda-se com a família definitivamente do Rio de Janeiro para São João de Meriti, na Baixada Fluminense. 
1946: Morre seu companheiro de Revolta, Francisco Dias Martins, o "Mão Negra". 
1953: Despede-se do navio Minas Gerais vendido como sucata à Itália. 
1959: Publicação do livro A Revolta da Chibata. Volta à terra natal para receber homenagem, cancelada por ordem da Marinha. 
1969: Morre a 8 de dezembro, no Hospital Getúlio Vargas. É sepultado no Cemitério do Caju, no Rio de Janeiro. Deixa uma herança de coragem e dignidade, além de esposa e filhos.
O Marinheiro
João Cândido, homem pobre, filho de ex-escravos, tornou-se aos 30 anos, uma das lideranças de um importante movimento pelos direitos humanos dentro da Marinha Brasileira, em 1910. A Revolta da Chibata foi a rebelião dos marujos para exigir o fim das punições corporais aplicadas pela Marinha de Guerra, Melhores soldos e alimentação digna.
1880 - João Cândido Felisberto nasce em 24 de junho de 1880, na Fazenda Coxilha Bonita, em Encruzilhada do Sul. Atualmente município Dom Feliciano, localizada no estado do Rio Grande do Sul. Aos 14 anos, ele ingressa na Escola de Aprendizes de Marinheiros de Porto Alegre. Dois anos depois, inicia uma vida de dedicação e devoção à Marinha de Guerra.

 
  A Cidade do Rio de Janeiro
A Capital de 1 milhão de habitantes está agitada com a posso do Presidente Marechal Hermes da Fonseca. O país vive relativa estabilidade com o café e com a borracha. Novidades européias trazem um modo de vida mais cosmopolita. A cidade ganha novos bondes e largas alamedas.

1910 - A Marinha se equipa com um dos navios de guerra mais poderoso do mundo: o Minas Gerais.
João Cândido e outros marinheiros são enviados à Inglaterra para conduzirem o encouraçado até o Brasil.
Uma Herança do Passado
 A escravidão já havia sido abolida por lei em 1888, mas insistia em deixar sua herança enraizada nas novas estruturas da República. Na Marinha de Guerra, os marinheiros sofriam forte preconceito e racismo.
Os marujos eram, em sua maioria, negros e de classes sociais mais baixas. Os recrutamentos eram desumanos. Meninos e pais de família eram jogados à força nos porões dos navios e, em condições precárias, muitos morriam antes mesmo de chegar ao destino. 

Revolta da Chibata

 A Revolta da Chibata ocorreu durante o governo de Hermes da Fonseca, em 1910. Foi um levante de cunho social, realizado em subdivisões da Marinha, sediadas no Rio de Janeiro. O objetivo era por fim às punições físicas a que eram submetidos os marinheiros, como as chicotadas, o uso da santa-luzia e o aprisionamento em celas destinadas ao isolamento. Os marinheiros requeriam também uma alimentação mais saudável e que fosse colocada em prática a lei de reajuste de seus honorários, já votada pelo Congresso. De todos os pedidos requeridos, o que mais afligia os marujos eram os constantes castigos a que eram sujeitos. Esta situação revoltou os marinheiros, que eram obrigados, por seus comandantes, a assistir a todas as punições aplicadas, para que elas servissem de exemplo. Os soldados se juntavam e ao estampido de tambores traziam o rebelado, despido na parte de cima e com as mãos atadas, iniciando o castigo.

A sublevação deu-se quando um marinheiro de nome Marcelino Rodrigues levou 250 chicotadas por ter machucado um companheiro da Marinha no interior do navio de guerra denominado Minas Gerais, que se encontrava a caminho do Rio de Janeiro. Os rebelados assassinaram o capitão do navio e mais três militares. Enquanto isso, na Baía de Guanabara, os insurgentes conseguiram a adesão dos marujos da nau São Paulo.

O condutor da insurreição, João Candido– o célebre Almirante Negro –, foi o responsável por escrever a missiva com as solicitações exigidas para o fim da revolta.

O presidente Hermes da Fonseca percebeu que não se tratava de um blefe e decidiu ceder diante do ultimato dos insurgentes. Os marinheiros confiaram no presidente, entregaram as armas e os navios rebelados, mas com o término do conflito o governante não cumpriu com a sua palavra e baniu alguns marinheiros que haviam feito parte do motim. Os marinheiros não se omitiram diante deste fato, estourando outro levante na Ilha das Cobras, o qual foi severamente abafado pelas tropas do governo. Muitos marujos morreram, outros tantos foram banidos da Marinha. Quanto a João Cândido, foi aprisionado e atirado em um calabouço na Ilha das Cobras. Quando se livrou da prisão, encontrava-se emocionalmente amargurado, considerado até mesmo meio alucinado. Em 1912 ele foi julgado e considerado inocente. Historicamente ficou conhecido como o Almirante Negro, aquele que aboliu o uso da chibata na Marinha brasileira.

                                   


A Capital sob a Mira dos Canhões
Um tiro de canhão é disparado ao longe e ecoa em uma das recepções que reúnem oficiais em homenagem à posse do Presidente. A cidade entra em colapso. Num só dia, mais de 3 mil pessoas fogem para Petrópolis. Trens superlotados levam inúmeras famílias aos subúrbios.
Por 5 dias, a Capital se paralisa. É uma esquadra de 4 navios com os canhões apontados para a cidade, e um total de 2.379 marujos.

O Governo Acuado
 O governo está sem saída. Ninguém quer o ataque à Capital e nem a destruição da poderosa esquadra. Imprensa, Marinha e políticos pedem uma dura reação do governo. Apesar disso, o Congresso e o Presidente Marechal Hermes da Fonseca cedem à pressão rebelados e assinam a anistia.
Logo após o decreto da anistia, os marinheiros entregam os navios em perfeita ordem. Contudo, tanto o governo quanto a oficialidade sentem-se afrontados com os fatos. 

A Quebra do Acordo
O Governo e as autoridades militares estão insatisfeitos com a anistia q querem voltar atrás e punir os rebelados. No dia 28 de novembro, é publicado o decreto nº 8.400, que dá à Marinha o direito de excluir os Marinheiros revoltosos. Entre 1910 e 1912, 1.216 homens foram expulsos. A Medida provoca uma onda de medo e tensão. Surge um a nova revolta, agora no Batalhão Naval. Era o pretexto que as autoridades queriam para agir severamente e punir a todos. A ordem foi bombardear a Ilha das Cobras, onde estavam concentrados os revoltosos. A anistia é invalidada. João Cândido, a bordo do Minas Gerais Mantém-se fiel à Marinha durante o levante do Batalhão Naval. Mesmo assim, ao desembarcar é preso junto com seus companheiros. Quebra-se o acordo firmado durante a Revolta da Chibata.
A Perseguição
A Marinha sufoca a sublevação da Ilha das Cobras e superlota celas com os marujos anistiados. João Cândido e mais 17 homens são presos em uma solitária subterrânea, úmida escura, onde é jogada cal virgem com o pretexto de higienização. Morrem por asfixia 16 presos. Sobrevivem João Cândido e outro companheiro. 441 presos são levados à Amazônia pelo navio Satélite. Alguns são mortos durante a viagem e muitos entregues a donos de seringais, para trabalhos forçados, bem como à Comissão Rondon.
1911 - Após Sobreviver à prisão na Ilha das Cobras, João Cândido é internado no Hospital Nacional de Alienados. Quando recebe alta, volta à prisão à espera de seu julgamento. Cerca de dois anos depois, no dia 29 de novembro de 1912, ele e seus companheiros são absolvidos por unanimidade pelo Conselho de Guerra.

A Vida Longe da Marinha
Após 17 anos de serviços - e deter visto companheiros serem aniquilados, João Cândido é absolvido em julgamento do Conselho de Guerra. Porém é desligado definitivamente de suas funções. Começa uma longa e difícil vida, pontuada pela saudade da Marinha de Guerra. Em 1930, o marinheiro muda-se para São João de Meriti, na Baixada Fluminense. Nesse tempo, ganha a vida como vendedor de pescado da Praça XV. Segue-se dias perto do Mar, mas longe da Marinha. Com dificuldade, consegue trabalho na Marinha de Mercante. Por pressão da Marinha de Guerra, é demitido. Isto repete ao longo de sua vida.
 
O Adeus ao Marinheiro

Pobre e quase anônimo João Cândido Felisberto morre a 6 de Dezembro de 1969. Apesar da perseguição ao longo da vida, vem sendo lembrado e homenageado. Dando continuidade à sua luta, crescem cada vez mais as iniciativas em busca da consolidação dos Direitos Humanos.

1974 - João Bosco e Aldir Blanc prestam homenagem ao marinheiro com a musica "O mestre-sala dos mares".A letra é censurada e a expressão "almirante negro" é trocada por "navegante negro". Ruas e praças ganham seu nome. Estátuas e bustos são erguidos em sua homenagem, garantido na história um lugar de destaque para sua luta.

 

 A revolta sob Diferentes olhares

Intelectuais, políticos e amigos, ao longo dos anos, lutaram para mostra ao país a importância da Revolta da Chibata. Muitos arriscaram-se, tendo seus direitos cassados durante a ditadura. Manifestações na imprensa, no teatro, na literatura e na música resgatam o nome do marinheiro e o colocam entre os homens de valor na história do Brasil.

1959- Edmar Morel escreve  " A Revolta da Chibata", um relato verdadeiro da rebelião.Durante suas pesquisas, enfrenta dificuldades e, em 1964, perde sues direitos políticos.Foi ganhador dos prêmios mais importantes de jornalismo e literatura do país - um reconhecimento pela importância de suas obras.

 











A Busca pela Anistia

A anistia foi concedida em 1910, ao fim da Revolta. Uma anistia que nunca foi respeitada de fato. Mesmo após ser absolvido no julgamento de 1912, o marinheiro foi desligado sem nenhum direito pelos 17 anos de serviços prestados à Marinha.

Em 23 de julho de 2008, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a Lei 11.756, de autoria da Senadora Marina Silva (PT-AC), que concede anistia post mortem a João Cândido e outros marujos participantes da revolta. A lei teve vetado o artigo que tornava automático e imediato o pagamento, por parte do governo, de indenizações aos descendentes dos marinheiros.

A Luta por direitos Hoje

Vem do passado o grito por justiça. Diversos movimentos semearam a atual consciência sobre a dignidade irrestrita, como o Quilombo dos Palmares, a Cabanagem, a Guerra de Canudos, a Sabinada, a Balaiada e a Revolta da Chibata.

2008-O Governo Federal, através da Secretaria Especial dos Direitos Humanos - SEDH, promoveu em 2008 o ano do Mutirão pelos direitos Humanos, estimulando o fortalecimento da dignidade humana, o exercício da cidadania e o respeito aos direitos .